O COVID-19 e a indústria

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Sou patrão, funcionário, ser humano. Sou filho que não pode ver os pais, neto que não pode ver o avô. Sou o "tipo do Youtube" e giro uma pequena empresa que no início do ano tinha 16 funcionários.

Esta é uma análise acima de tudo económica do surto do COVID-19 / coronavirus. A análise de saúde deixo para os especialistas da área. É um problema de saúde muito real e muito grave que nos apanhou a todos de surpresa.

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HISTÓRIA

Em 2018 estávamos em crescimento acelerado e 2019 foi de longe o nosso melhor ano. O país estava a crescer, os mercados em que trabalhamos estavam estáveis.

Investi. Investi nas instalações, em maquinaria, em recursos humanos. Em janeiro de 2020 tudo parecia promissor e havia planos de curto, médio e longo prazo para a empresa. Tivemos o nosso melhor janeiro de sempre, liquidei um empréstimo e paguei algumas da máquinas que adquiri. Sabia que ia ficar apertado mas iria poupar os juros. Parecia uma boa aposta a médio prazo.

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ATUALIDADE

Entra em cena fevereiro e o panorama começa a mudar ligeiramente. Embora sem quebra, senti pela primeira vez que algo não estava bem, que havia medos no mercado. "Tudo bem", pensei. "Há algum receio das empresas mas isto não será grave, passará".

Bem, como estava enganado! A primeira semana de março teve uma quebra mais acentuada. E de repente parou tudo. O telefone deixou de tocar, os emails deixaram de chegar. Encomendas que sabíamos estar certas foram adiadas. Encomendas que já tínhamos foram canceladas.

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Telefonámos e enviámos emails a clientes de longa data ou que encomendam nesta altura do ano. Estão encerrados, em contenção de custos ou na expectativa para ver o que irá acontecer. E depois o Governo manda encerrar as escolas e milhares de pessoas foram para casa.

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Duas semanas depois, estamos a pouco mais de meio do mês e os dias não estão fáceis. A minha força de trabalho está parada, passamos horas a olhar uns para os outros com pouco ou nada para fazer em quase todas as secções.

Quem precisou ir para casa para estar com os filhos, foi. Quem tinha contratos perto da data de renovação foi informado que não serão renovados. Quem pôde meter férias, meteu. Temos uma equipa esqueleto a trabalhar, com diversas medidas de contigência para reduzir riscos.

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Temos fornecedores encerrados, praticamente não temos clientes. Toda a evolução em máquinas que fizemos o ano passado virou-se contra nós. Trabalhamos hoje mais rápido em serigrafia, impressão direta e bordados, o que significa que demoramos muito menos tempo a ficar sem trabalho. É uma máquina - hoje infelizmente - bem oleada.

Poderíamos encerrar? Sim. Mas temos ainda uma semana de trabalho para produzir e precisamos enviar a mercadoria para receber os pagamentos. Se encerramos os custos mantêm-se mas o pouco dinheiro que ainda conseguimos receber desaparece.

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FUTURO pt.1

Quem percebe disto aponta para final de abril / início de maio o pico do surto. Início de maio é dentro de 1 mês e meio. 1 mês e meio para ficar MAU. Porque isto ainda não é mau, entenda-se. As empresas estão a encerrar, as pessoas estão apavoradas e só vai piorar.

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"Esta é a luta da nossa vida", ouve-se um pouco por todo o lado. E é mesmo. É a luta pela sobrevivência física numa primeira fase e a luta pela sobrevivência psicológica e económica numa segunda.

"Temos de ficar em casa". Concordo. Temos! Temos de encerrar portas. Mas não podemos. Não nos deixam. Não nos dão soluções que nos permita fechar as portas. O próprio Estado não tem condições financeiras para implementar uma quarentena para todo o país, nesta fase.

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Quem encerra os estabelecimentos tem três hipóteses. Coloca toda a gente de férias (que não resolve o problema), paga os ordenados por inteiro (se conseguir) ou despede.

Não há boas soluções. Ninguém quer despedir parte da força de trabalho, as pessoas que nos ajudaram a chegar ao patamar em que todos estamos. Estas pessoas merecem mais respeito.

Mas precisamos pensar no bem de todos, não só de alguns. E por mais difícil que seja de se colocar em cima da mesa, tem de lá estar. Porque se a empresa fecha, ficam todos sem trabalho.

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APOIOS FINANCEIROS

Do Governo - para as empresas - as medidas chegam a conta gotas. Todos os dias há algo novo, uma modificação. Mas nada que nos ajude no curto prazo.

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Haverá uma linha de apoio (crédito) com juros elevados e com acesso para as empresas apenas dentro de 2 meses. No nosso caso, consigo créditos fora da linha de apoio com taxas mais baixas. Conheço casos similares. Já os accionei mas também não chegarão em tempo útil.

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Haverá o adiar de pagamentos de contribuições para outra altura do ano. Algo que ajuda no imediato mas que estará no caminho quando (se) as empresas se começarem a tentar levantar.

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Haverá o lay off simplificado. Esta é a única medida que irá - de facto - ajudar a tesouraria das empresas. Chegará dentro de 60 dias.

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Com excepção do lay off, que irá de facto ajudar as empresas a estancar a hemorragia (bem como as famílias, que poderão manter o posto de trabalho), todas as restantes medidas são um adiar de custos (adiamento de contribuições) ou um aumento de endividamento (empréstimos) a juros altos para as empresas.

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Quando lutamos pela sobrevivência da empresa, precisamos ter muita coisa em conta e há cortes que precisam ser feitos com muita rapidez.

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TEMPO E MEDIDAS

O tempo é o nosso maior inimigo, neste momento. Quanto mais tempo deixarmos passar, pior. De que nos vale ficar em casa 15 dias se quando saírmos estamos de novo em contacto com o vírus?

Precisamos de um choque imediato para que nos possamos levantar rapidamente.

Encerrar as fronteiras foi uma boa medida, mas insuficiente. Insuficiente porque tem de ser o mundo inteiro a tomá-la. De que nos vale encerrar as fronteiras do nosso país (por via aérea e terrestre) se os restantes países as mantêm abertas? Podemos estancar este surto em Portugal mas no dia em reabrirmos as fronteiras, a doença volta e voltamos ao ponto de partida. Olhemos para a China e Macau, que só têm casos importados, neste momento.

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Assumindo que tudo piora até maio, não prevejo que melhore até julho. Não será no pior momento que nos iremos erguer, que haverá confiança. Precisamos de um mês de junho e julho calmos em casos para que o COVID-19 comece a sair das nossas cabeças. Precisamos que em agosto o país não pare para férias e que consigamos começar a recuperar. Não acredito que antes de agosto ou setembro consigamos ver alguma recuperação. Setembro é dentro de 6 meses. Conseguiremos sobreviver?

Espero estar enganado, mas ou encerramos todo o tráfego aéreo e fronteiras em todo o mundo (ou pelo menos na Europa) ou teremos uma crise extremamente longa nas nossas mãos.

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FUTURO pt.2

Os despedimentos serão inevitáveis. Nenhuma empresa irá conseguir manter-se à tona durante muito tempo nestas condições.

Os encargos são gigantes. Ordenados, eletricidade, renda. Tudo isto se mantém e não há dinheiro a entrar. Os primeiros a ir são os precários e os que têm contratos a termo. Depois disso, ninguém sabe.

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Muitas empresas que encerraram portas já não irão abrir de novo. As restantes ficarão com dívidas gigantes que coloca a sua reabilitação em sério perigo a curto, médio ou longo prazo.

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Uma das maiores "autoridades" na nossa indústria é Mark Coudray. O Mark já passou pelo 11 de setembro e pelo desastre financeiro de 2008. Ele trabalha há 50 anos na indústria e perdeu a sua empresa na última crise.

We are in unprecedented times. In my almost 50 years in business, I have seen ups and downs. I vividly remember 911 and 2008. What we are going through right now is much worse and holds a very uncertain future.

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A enorme diferença entre esta crise e qualquer outra que tenhamos vivido na nossa vida é que esta foi repentina. O mundo parou de um dia para o outro.

Tipicamente, numa crise, as pessoas vão perdendo dinheiro e trabalho ao longo do tempo. É uma hemorragia que se vai conseguindo conter e adaptar, lentamente.

Esta crise é muito diferente. Ontem havia trabalho, hoje não há. É por isso que se diz tanto que estamos em guerra. Porque é exactamente o que acontece em tempo de guerra. Nunca nenhum patrão em atividade viveu isto em Portugal. Nunca nenhum político viveu isto em qualquer lado na Europa. Não há um manual, não há um procedimento correto por onde nos possamos agarrar.

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Por mais importante que seja - E É!! - preservar a vida humana, é igualmente importante pensar no futuro. E o futuro tem muitas incertezas, é muito muito negro e temos de nos preparar também para isso.

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Se acredito que Portugal, os portugueses e as empresas vão sobreviver ao COVID-19? Sim, acredito. Mas acredito que irá deixar marcas não só no nosso país como em toda Europa por mais de uma década.

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